Quando a necessidade se transforma em amor

Trabalhar com jovens e crianças pobres é quase sempre uma escolha de quem se preocupa com a situação de meninos e meninas que vivem em condições de privação por todo o Brasil. No caso da adolescente Mayara Chirstina Santana, de 17 anos, essa decisão foi a solução encontrada para ajudar sua família em um momento de dificuldades. Para ela, estudar e aproveitar o resto de sua infância com os amigos, até então, eram suas únicas preocupações. Mas, aos 16 anos de idade, de uma hora para outra, a menina teve de assumir responsabilidades. Desde então tudo mudou.

Há um ano atuando como monitora no Projeto de Erradicação de Trabalho Infantil (Peti) na cidade de Conselheiro Mairinck, a jovem paranaense revela, com lágrimas nos olhos, que o que antes, por obrigação, fazia com receio, agora realiza com amor e dedicação. Com os olhos atentos na mesa da última sessão Plenária para deliberar as diretrizes das políticas públicas para as crianças e adolescentes de todo do Brasil, Mayara se emociona ao falar da pequena, porém profunda trajetória que a trouxe até a 8ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.

“Eu nunca tinha trabalhado na minha vida. Nem pensava em fazer isso tão cedo. Mas quando meu pai perdeu o emprego, minha família começou a passar necessidade. Então, tive que trabalhar para ajudá-los”, conta. Segundo ela, a idéia de ter que lidar com crianças não era muito confortável, mas a necessidade venceu o preconceito. “Eu pensava que não me adaptaria a essa situação porque achava complicado ter de passar tanto tempo com elas, ainda mais nas condições em que elas estão. Mas com o tempo, fui me acostumando e aprendi a gostar”.

Parte do receio inicial da adolescente pode ser compreendida quando se avalia a condição psicológica de muitas das crianças atendidas pelo Peti. “Hoje entendo melhor porque elas, muitas vezes, são agressivas e até violentas. A vida delas é muito complicada”. De acordo com a Mayara, o Peti oferece às crianças aulas como informática e música, em horários alternativos aos escolares. Para garantir que elas não trabalhem, cada uma recebe um auxílio mensal em dinheiro, mediante comprovação de frequência na escola e da participação regular nas aulas oferecidas pelo Peti.

Para Mayara, poder compartilhar com pessoas de outros estados suas experiências e a oportunidade de apreender novos conhecimentos lhe trouxe muita satisfação. “Aqui tem 27 estados, cada um com sua necessidade. Tudo o que aprendi aqui vou levar para o meu município, como o fato de que muitas crianças têm seus direitos violados”, diz a jovem, que também elogia a forma democrática com que os jovens participaram do evento. “Achei importante porque estamos sendo ouvidos. Se não for assim, não tem como os adultos saberem o que é melhor para nós”, diz. 
 
Na mini-plenária responsável por discutir o “Fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos”, Mayara, com o microfone nas mãos, defendeu seu ponto de vista e foi muito aplaudida por sua observação. “Os dois itens falam exatamente a mesma coisa. O certo seria transformá-los em um só”, explica. Vencida pelos votos, a jovem não muda sua opinião e ratifica sua visão: “Não precisamos de muitas propostas, que só servem para encher o papel. Precisamos de propostas claras, de fácil compreensão e que possam ser executadas de forma rápida. Tem que ser para agora e não para depois”, enfatiza.

Hoje, Mayara não precisa mais trabalhar para ajudar a família. Seu pai recuperou o emprego e a família voltou a ter o conforto de antes. Entretanto, após todo o aprendizado, a jovem não é mais a mesma. “Agora eu trabalho para mim, mas não pretendo deixar de trabalhar com as crianças em situação de vulnerabilidade. Hoje faço por prazer”, afirma. Ao contar seus planos, fala sobre a dúvida entre se tornar jornalista ou assistente social, sobre a paixão pela fotografia e mostra uma única certeza: “Pretendo continuar na área de políticas públicas”.
 

Redação: Elizângela Isaque

Foto: Leonardo Prado

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