Cotas para negros:uma realidade mais distante
(Por Gisliene Hesse) Não era para ficarmos assustados com o que aconteceu no Congresso Nacional. Tivemos a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial sem um dos pontos que são mais debatidos pela sociedade: a política de ação afirmativa para reserva de vagas no ensino superior.
Sete anos de discussões na Câmara e no Senado não foram suficientes para resolver a questão. Fico me perguntando se serão necessários mais sete anos para que esse ponto específico seja votado terminativamente no Congresso.
A cor das duas casas – Câmara dos Deputados e Senado Federal – definitivamente não é a mesma da nossa sociedade. Pesquisa desenvolvida pelo relatório da desigualdade racial no Brasil 2007-2008 confirma que o perfil padrão dos tomadores de decisão é formado por: homem, branco e com curso superior completo.
È de se pensar que uma baixa representatividade de negros/as nas casas dificulta a aprovação de Leis de promoção da igualdade racial e de uma legislação de combate ao racismo e a discriminação. De certo a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial pode até ser um avanço, mas a dívida com os negros/as no país é muito maior.
Em 2005, a população negra representava 49,6% da população brasileira, o que corresponde uma população de 92 milhões de pessoas que, no geral, vivem em condições de vida inaceitáveis. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA):
“Negros nascem com peso inferior a brancos, têm maior probabilidade de morrer antes de completar um ano de idade, têm menor probabilidade de freqüentar uma creche e sofrem de taxas de repetência mais altas na escola, o que leva a abandonar os estudos com níveis educacionais inferiores aos dos brancos. Jovens negros morrem de forma violenta em maior número que jovens brancos e têm probabilidades menores de encontrar um emprego. Se encontrarem um emprego recebem menos da metade do salário recebido pelos brancos, o que leva a que se aposentem mais tarde e com valores inferiores, quando o fazem. Ao longo de toda a vida, sofrem com o pior atendimento no sistema de saúde e terminam por viver menos e em maior pobreza que brancos”.
Os negros/as brasileiros enfrentam diferentes formas de desigualdades raciais no campo da educação. Apesar da melhora das condições de educação em geral, não se tem conseguido promover a inclusão da população negra no sistema. Existem diferenças consideráveis entre brancos/as e negros/as em relação ao acesso e à permanência na escola. Os reflexos são confirmados quando constatamos que apenas 6,6 % de jovens negros/as freqüentam a universidade.
Ora, se a maioria dos representantes do povo que está dentro do Congresso é formada por brancos/as, e se grande parte dos estudantes das universidades são igualmente dessa etnia e possuem renda privilegiada, então podemos constatar que os espaços profissionais também estão mais preenchidos pelos brancos/as.
Sem representatividade, os negros/as são esquecidos no parlamento, pelos meios de comunicação, no mercado de trabalho, na educação e pela própria sociedade. A política de cotas poderá proporcionar a essa raça uma maior participação em todos os setores do país. Uma estratégia que não terá resultados imediatos, mas que garantirá um futuro diferenciado, onde negros/as possam lutar mais pelos seus direitos.
Uma das formas de se ter uma sociedade mais igual é educar todas as pessoas de forma igual. O Brasil deve muito aos negros/as e o futuro só poderá ser melhor se o país der oportunidades para as novas gerações dessa população. Eu tenho o mesmo sonho de Martin Luther King: “O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele”.
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